Após dois filmes muito bons (especialmente “Homem-Aranha 2″), que mostraram a Hollywood que o avanço tecnológico da indústria e a criatividade dos profissionais envolvidos poderia levar praticamente qualquer longa-metragem baseado em quadrinhos à tela grande, a trilogia “Homem-Aranha” sofreu um grande baque com “Homem-Aranha 3″, tão lembrado por momentos patéticos (como Tobey Maguire com uma ridícula franja emo, o que nos fez questionar, novamente, a capacidade do ator em interpretar um personagem que deveria ser esperto, sagaz) e pelo excesso de vilões pessimamente explorados, nem parecendo ter sido desenvolvido pela mesma equipe que iniciou franquia tão bem-sucedida entre público e crítica. Pois mais curiosa ainda foi a recepção pouco calorosa ao anúncio de um reboot poucos anos depois, sob a promessa de apresentar a história não contada do “Cabeça de Teia”. Agora, após conferir seu resultado final, pode-se dizer com todas as letras o que todos já pretendiam dizer quando a Sony divulgou a estreia de “O Espetacular Homem-Aranha” apenas 10 anos após o início da cinessérie: os estúdios estão pouquíssimo preocupados com a qualidade artística ou a fidelidade ao personagem, mas com o retorno financeiro que tais filmes sempre proporcionam.
O roteiro dos experientes James Vanderbilt (“Zodíaco”), Alvin Sargent (“Homem-Aranha 2″ e ” Homem-Aranha 3″) e Steve Kloves (da franquia “Harry Potter”) destina longos minutos iniciais a apresentar a tal “história não contada” de Peter Parker, que se refere à sua origem e o abandono de seus pais. A proposta, em sua essência, sempre soou como mera desculpa, uma vez que nenhum fã jamais ousou ignorar a figura paterna inerente aos tios Ben e May (agora vividos pelos ótimos Martin Sheen e Sally Field, respectivamente). No entanto, a opção dos três roteiristas de desenvolver a premissa por tanto tempo pare depois resgatá-la apenas nos créditos finais, indiciando que essa será desenvolvida numa sequência (apenas confirmada após o sucesso do longa em seus primeiros dias de exibição), é de uma cretinice abissal. Só confirma a suspeita inicial de que algo precisava ser dito a fim de justificar o caça-níquel.
Dali em diante, o que se percebe é o desenvolvimento da história nos moldes que foram escritos os filmes de 2002, 2004 e 2007, dispensando a apresentação da sinopse. Não podemos ignorar a necessidade de Peter Parker (Andrew Garfield) ser um cara inteligente, pouco popular na escola, que passa a atrair a atenção da garota pela qual é apaixonado – agora Gwen Stacy (Emma Stone) – após ser picado por uma aranha num laboratório, mas o modo formulaico como isso é apresentado é muito peculiar, bem como se dão TODAS as “reviravoltas” da histórias anteriores, inclusive o processo de aprimoramento dos poderes do super-herói e a rebeldia que a mudança confere ao personagem. Algo que destoa dos filmes concebidos por Sam Raimi é a frieza com que os temas são tratados, principalmente quando ocorre a trágica morte do tio Ben – na cena seguinte, tristeza e inconformismo, sentimentos naturais com a morte de um ente querido, logo dão lugar à ira do Aranha/Parker, o que é um equívoco tremendo.
A incompetência do roteiro escrito a seis mãos fica ainda mais evidente quando percebemos que nada disso é culpa de Andrew Garfield, que está muito bem no papel. Ele é devidamente sarcástico, tem o biotipo de Peter Parker e exala carisma e química com a ótima Emma Stone, em bons momentos que nos fazem lembrar que o diretor que os comanda é Marc Webb, de “(500) Dias com Ela”. Vale fazer a ressalva de que o tom mais realista (tendência que vem sendo seguida desde “Batman Begins”, de Christopher Nolan) é um acerto que rende boas sacadas, mas o roteiro volta a deslizar em situações fortuitas (reparem a cena em que o herói é ajudado por enormes equipamentos de construção espalhados por toda cidade, a despeito do caos que tomas as ruas de Nova York, o que impossibilitaria que os veículos ficassem distribuídos tão logística e impecavelmente) e na composição de seu vilão. Ah, o vilão…
Rhys Ifans (“Um Lugar Chamado Notting Hill”) é um bom ator britânico, mas não foi capaz de contornar a tragédia que é seu Dr. Curt Connors, que segue um caminho muito semelhante ao Duende Verde até se tornar o Lagarto. Os momentos de confusão do personagem de Willem Dafoe em “Homem-Aranha”, que escuta vozes responsáveis pelo transtorno em sua personalidade, estão todos no suposto reboot. Mais adiante, o comportamento ora hostil, ora amistoso do “cientista réptil” remete a outros vilões familiares, o Doutor Octopus (Alfred Molina) e o Duende Macabro (James Franco), o que distancia a fita de qualquer traço de inventividade, mesmo dentro da franquia. Ifans ainda é “presenteado” com cenas sempre carregadas no CGI, e o momento em que um carro cai da Ponte do Brooklin evidencia que nem mesmo os efeitos visuais evoluíram tanto para justificarem a reformulação da franquia.
Com o auxílio de uma tecnologia 3D quase imperceptível, a Sony pôde turbinar o preço dos ingressos e já colhe louros verdes da cor do dólar pelo projeto, o que permitiu a confirmação de uma nova trilogia do super-herói. O filme não é um desastre total, até divertido, mas o prematuro agendamento da sequência para maio de 2014 só aumenta o pessimismo com a continuidade da franquia, pois os envolvidos terão de correr para não atrasar o cronograma, mesmo que isso signifique entregar a continuação nas coxas – ou outra cópia da trilogia iniciada há 10 anos. Uma pena que Andrew Garfield, astro em ascensão dono de potencial para ser o Peter Parker/Homem-Aranha definitivo, não tenha tido a sorte de trabalhar com Sam Raimi.
Confira o novo trailer do irregular ‘O Espetacular Homem-Aranha:






