
A única cena onde Sean Penn perde o olhar melancólico em ‘Aqui é o Meu Lugar’; um dos mais belos lançamentos de 2012 (divulgação)
Que tarefa inglória coube a ‘Aqui é o Meu Lugar’ hein… imaginem, depois de ver sua estreia adiada em mais de 4 meses (cortesia da Imagem Filmes), acabou sendo programado para ver a luz do dia no exato momento em que ‘Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge’ chegar. Sorte de Christopher Nolan (que entregou o filme do tamanho e da dimensão que a trilogia pedia, se despedindo com louvor), azar de Paolo Sorrentino, o italiano que comanda essa produção modesta nos padrões mas gigantesca nas qualidades e intenções. Azar?
Sorrentino é pouco conhecido por enquanto, mas seu nome já começa a ficar gravado na Europa. Este apenas é seu quinto longa metragem, e apenas o primeiro não competiu em Cannes; o anterior a esse, a espetacular comédia política ‘Il Divo’ não somente ganhou o Prêmio Especial como teve uma surpreendentemente merecida indicação ao Oscar de maquiagem, num misto de denúncia e chacota sobre o horror que Giulio Andreotti foi para o governo e o povo italiano. Esse novo teve muitos narizes torcidos na Croisette do ano passado, mas levou o David di Donatello (o ‘Oscar italiano’) de roteiro, e ainda de quebra mostra um lado delicado de seu diretor; quanto aos narizes torcidos, esqueça.
O filme lembra algo do ‘Clean’ de Olivier Assayas, onde astros de rock de outrora precisam acertar as contas com suas respectivas famílias. Esse aspecto une os filmes em parte, já que o longa de Assayas era cru e duro e esse aqui é quase uma poesia moderna; outro paralelo mais amplo tem a ver com as propostas narrativas tão diversas que seus diretores escolheram, e como integralmente souberam abraça-las. ‘Aqui é o Meu Lugar’ em particular nunca foge aos signos que Sorrentino nos entrega desde o início, e que mesmo lá em ‘Il Divo’ já tinham exuberância. E um terceiro paralelo entre os filmes seria a desconcertante performance de seus protagonistas, Maggie Cheung lá e Sean Penn aqui.
Aqui vemos Cheyenne, uma estrela do rock dos anos 80 que há muito caiu em desgraça por uma tragédia do passado. Hoje recluso na Irlanda, Cheyenne vive ao lado da esposa (a sempre inspirada Frances McDormand) numa mansão cinematográfica e é seguido 24 horas por dia por um misto de fã adolescente com amiga e confidente, tudo isso numa cidadezinha que nutre sentimentos conflitantes por ele (e que serão expostos a contagotas pelo filme). A pasmaceira em que vive é quebrada quando um telefonema lhe informa do grave estado de saúde de seu pai, que ele não vê há mais de 20 anos. É o que basta para o filho pródigo voltar ao seio da família judaico-americana que ela tenta ignorar, mas cujo elo é impossível de romper, ainda mais quando ele fica a par que seu pai havia recém descoberto um nazista responsável por tortura-lo num campo de concentração na Segunda Guerra Mundial. E é nessa jornada ‘on the road’ pela América árida e desértica que Cheyenne irá se embrenhar, em busca do sentido que lhe falta há tanto tempo e das respostas às perguntas que ele jamais ousou fazer a si mesmo.
Parece típico dramalhão americano a partir de certo momento da sinopse, mas não se preocupe que de convencional e burocrático o filme não tem nem fagulha. Repleto de embasbacantes planos-sequência espalhados aqui e ali, Sorrentino nos convence cena a cena do grande potencial que tem, numa direção nunca menos que brilhante. Fotografia, montagem e trilha são igualmente ferozes e capazes de passar todo o manancial de sentimentos por trás daquela figura tão patética quanto é o protagonista. E o fato do roteiro também ser de autoria de Sorrentino só confirma o lado meticuloso da coisa, com o autor tendo total consciência do que o diretor queria. No meio de tudo, uma participação especial realmente musical tem os diálogos mais impressionantes do filme, e uma cena de show de tirar o fôlego e cheia de metáforas sobre inadequação e isolamento, os temas que o próprio filme carrega de bandeja.
Agora se você é fã de Sean Penn como eu e é através do filme novo do astro que você está, saiba que isso tem o lado bom e o lado ruim (mas que é igualmente recompensador). O bom é que Penn não deixa a peteca cair em nenhum, um personagem de dificílima composiçãomas que se transforma em ser humando graças a ele a olhos vistos; o ruim é que Penn deve ter lido o roteiro e jurado que concorreria a todos os prêmios pelo filme, mas Sorrentino dá uma banda nele e não cria um filme óbvio e premiável, mas uma obra de autor em primeiro lugar, onde sua visão é o mais importante, um filme que não faz concessão alguma, de disgestão complicada e com alma mais que contemplativa, de paisagens externas e internas, colocando Penn como refém de sua hipnótica direção, tão triunfal como na cena do posto de gasolina e tão singela como no dueto entre Cheyenne e um menininho.
No fundo não é o que queremos, ver um grande filme independente de qualquer coisa? Então esqueçam o visual de Sean Penn, a revelação de segredos do filme, o ritmo que muitos acharão lento, as relações humanas bizarras e profundamente verdadeiras mostradas na produção. Pensando bem, o fim de semana está maravilhoso; corra pra ver o Batman, mas assim que o ingresso esgotar (e ele irá) vocês já sabem que tem vida inteligente longe de Bruce Wayne. E talvez seja mesmo ‘Aqui é o Meu Lugar’ quem empresta qualidade ímpar ao fim de semana, um dos mais interessantes e bonitos filmes do ano.




